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poema (de 2001; peguem leve)

A DIVINA BATALHA

ou

A ADOLFEIDA

de Rafael Belpomo Quintanilha

 

 

Adolfo morreu no anonimato

E não conseguiu descansar em paz.

Perguntou a Deus o que fizera errado;

Este lhe disse: “Meu rapaz,

“Nada!

“Você até que merecia.

“É que eu estava

“Num daqueles dias . . .”

 

“Como?!!” perguntou Adolfo, irado;

“Seu grandessíssimo desgraçado!

“Acha que porque ‘criou’ o mundo

“Pode comigo fazer de tudo?

“Demando minha fama,

“Seu velho vagabundo!

“Exijo ser louvado

“No lugar donde oriundo.”

 

“Demanda?

“Exige?

“Do que está falando

“Se já nem mais existe?

“Não ouse assim falar comigo

“Ou receberá o mais doloroso castigo!”

 

O homem, não obstante, não se importava,

Como não temesse dos vulcões a lava,

Convicto que estava de haver merecido

Prêmio – não castigo.

 

Havia em seus olhos um fogo

Que não falhou em assustar Deus.

Fê-lo perguntar-se logo

Se era aquele um filho Seu.

“Bem, amigo mio,

“Considere isso um desafio:

“De um ou doutro jeito

“Terei o que é meu por direito.

“Ó, Criatura Criadora perversa,

“Ouça bem minha promessa:

“Será meu o que vim buscar,

“Tendo ou não que te matar!”

 

“Isso já é mais que bastante!

“Jamais o verei, doravante.

“Irá para inferno tão cruel

“Que rezará pelo de Dante.”

E assim se fez –

Bom, praticamente:

O lugar a que Adolfo foi

Nem lhe pareceu tão quente!

Ouvia os gritos mais ultrajados

Que jamais escutaria,

Mas não estava mais incomodado

Que no mais ameno dia.

Certamente tinha esse Adolfo

Qualidades especiais,

Posto ser imune ao fogo

E às outras atrocidades infernais.

 

Deus não tinha pista

De que tal prodigioso humano(?)

Tinha em sua mente enxadrista,

Como sempre, brilhante plano.

Adolfo pôs-se a executá-lo,

Qual mandasse Deus lamber-lhe o falo.

Foi de demônio em demônio

Visando recrutá-los.

 

Em uma tarde somente

Conseguiu uns novecentos –

Que já excediam grandemente

A população do Firmamento(!).

Talharam lanças de harpas roubadas,

Subiram as montanhas mais escarpadas,

E ao chegar a madrugada

Atingiam a meta almejada:

O Céu.

 

O dourado portão

Foi derrubado sem perdão,

O sedado guardião

Pungido no coração.

Avançava a multidão

Fazendo tremer o chão,

Comandada por Adolfo

E seu xará alemão.

Deus cometera o erro fatal

De ignorar as palavras do rival.

O Céu estava desguarnecido,

E o fim era previamente conhecido.

 

Os duzentos residentes dos Céu não sabiam o que sucedia:

“Deus, que gente é essa?

“Por que empunham flechas?

“Que alvoroço é esse antes de raiar o dia?”

 

Rafael,

Miguel,

Gabriel,

Até o bom Maquiavel –

Foram, um a um, cada um,

Todos mortos,

A turba de demônios

Pisoteando seus corpos.

 

Em quinze minutos não havia mais anjos,

Nem santos, nem benfeitores:

Jaziam os fiéis,

Fugiram os traidores.

Deus (outro covarde)

Tentou ainda fugir,

Mas já era tarde.

Pôde claramente ouvir,

 

“Ó, velha fraude,

“‘Peraí, alto lá!

“Temos eu e você

“Ainda muito o que acertar.”

Deus, desesperado,

Se ajoelhou.

“Quero,” disse Ele,

“Luta justa, por favor.”

 

“Muito bem, tome uma lança

“Se ainda nutre esperança.”

Os desgraçados dali

Fizeram roda pr’assistir.

 

Oh! como foram tensos

Aqueles seguintes momentos!

Afinal devia esta ser

A maior batalha de todos os tempos.

Mas que decepção foi a peleja,

Pois Ele era gordo e senil:

Adolfo ergueu seu pé;

Deus tropeçou e caiu.

Adolfo levantou sua lança,

Rindo disse, “Quem diria?”

E no próximo segundo

O Senhor não mais existia.

 

Adolfo foi aplaudido.

Mas . . . e agora o quê?

No cerne de sua alma

Sabia bem o que fazer.

Ajoelhando-se

Roubou do ex-Deus a veste;

Vestindo-a

Proclamou-se o novo Rei Celeste.

 

Como suspeitava,

Da roupa vinham os poderes de Deus!

Apesar de suja e furada,

Fez que passassem a ser Seus.

 

A primeira ordem de Adolfo

Foi que todo homem,

Inconscientemente,

Passasse a louvar Seu nome.

Assim se fez,

E o nome “Deus” se perdeu.

Todos hoje dizem “Adolfo”

Quando querem dizer “Deus.”

 

E o mundo ficou mais feliz,

Porque Deus era mais feliz.

O Todo-Poderoso Adolfo

Já tinha a fama que queria –

Não precisava daquela masturbação

De matar inocentes todo dia.

 

Agora tudo estava muito bom

E devia estar acabado;

Mas, em algum lugar, Hitler (o vice)

Armava o golpe de Estado . . .

 

Rio de Janeiro, 12, 13 e 17 de dezembro de 2001.

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