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conto de 2002

OS AMIGOS DE ANÍBAL

 

de Rafael Belpomo Quintanilha

___

PRIMEIRO CAPÍTULO

 

1

 

            Uau! que belíssimo céu! César achava quase impossível que já houvesse visto céu tão lindo. Excetuando, sua mente insistia, aquela noite da formatura da oitava série, havia alguns decênios. Mas aquela noite – todo aquele dia, todos aqueles anos, na verdade – tinha sido perfeita, enquanto o zênite desse dia seria este: apenas olhar para o céu, inconsciente de tudo o mais. Sentia-se bem – não bem no sentido de ter alcançado suas metas de adolescência, de ser feliz; mas bem como nas alegrias mais estúpidas: vento no rosto dentro dum ônibus escaldante; queijo, presunto e Coca-Cola na garganta quando se está faminto; sua música favorita; olhar para um céu indescritivelmente bonito . . .

E uma sensação de leveza. Gradativamente o ambiente onírico se dissipou, por conta do odor que passava a se pronunciar. Era ligeiramente incômodo, até que ––

“Puta que pariu!” que, precedido de uma interjeição, mostrou quão horrível o cheiro era realmente. Lixo, urina, álcool. E boa parte vinha dele. A grande abóbada estava limitada por três paredes de tijolos de um vermelho desbotado, boa parte ligeiramente danificados – especialmente os do topo, que transformavam a fronteira em algo irregular (mais similar a uma fronteira entre países num mapa que ângulos retos imaginados por um arquiteto ou engenheiro).

A dor que experimentou ao virar o pescoço sugeriu que este estava em posição pouco recomendável havia várias horas. Por um instante houve um confortável afago em seu saco, mas, quando olhou, o acariciador já fugira. Novamente virou a cabeça para a esquerda e viu o que era: um rato duplo, quase translúcido, correndo graciosamente (bastante notável para um rato) pelos sacos de lixo pretos.

Repetindo a profanação tentou se levantar; caiu. Suas pernas estavam fracas e agora também doíam. Hiper-ventilou-se e, se esforçando mais do que achava possível, ergueu-se definitivamente. Ruminou algo como “uff” com um quê de triunfo exausto e fechou os olhos para protegê-los da luz dantesca que emitia aquele céu maldito.

Abriu-os. Que está acontecendo? pensou. Onde é que eu estou? Não achou resposta nem em sua memória nem nos ratos nem no cheiro de cloaca. Decidiu andar, crendo que dificilmente encontraria lugar pior.

Engraçado é que, contrariando suas perspectivas, saindo do beco viu que o resto do lugar era muito bem cuidado – o típico bairro de ricos, com as árvores, os parques etc. Andou ao longo duma rua, atravessou outras três, quando se interessou em saber as horas. Seu relógio aparentemente havia sido roubado junto com a sua dignidade; a carteira também. O sol para ele só dizia que podia ser tanto nove horas da manhã quanto três da tarde; mas como ele nunca fora um exímio navegador, não confiava muito na estimativa.

Finalmente encontrou uma pessoa – uma senhora de cabelo roxo, a uns trinta metros de onde ele estava. César gritou, “Por favor, senhora,” conseguindo a atenção da mulher; depois avançando no sentido dela, “por favor, onde é que eu estou?” Mas ela, que não conseguiria correr, já tinha começado a andar rapidamente, fugindo dele como que de um cachorro raivoso; e entrou no primeiro prédio.

“Ela estava com medo de mim,” murmurou César, e entendeu por quê: não apenas tinha ele as roupas rasgadas e o corpo visivelmente sujo, mas era inclusive possível que a velhinha tivesse sido capaz de sentir os exóticos odores oriundos dele; ela achara que ele era um mendigo e/ou bêbado, o que era justo.

O homem atordoado retomou sua caminhada atento às placas com os nomes das ruas, sem no entanto reconhecê-los; chegou a considerar que estivesse sonhando, ou mesmo numa outra dimensão – o engenheiro era fã de ficção científica. Não compreendia como numa sexta-feira às nove ou quinze horas as ruas poderiam estar desertas a tal ponto – a não ser que nessa dimensão na qual se encontrava o sol brilhasse de madrugada. Mas dobrando certa esquina viu um estabelecimento comercial de nome sem sentido aparente – O Português do Flores – onde se esboçava algum movimento.

Como sucede com infinitas coisas e pessoas no mundo, o Português de longe parecia ser bem melhor do que era. Aqui havia gente se embebedando a essa hora da manhã (supondo que fosse de manhã), o que César achou absurdo; mas os olhares enojados mostravam-lhe que dentre os bêbados patéticos ele era o que se encontrava em pior estado de conservação. Humildemente andou até o balcão; o português dono do Português deixou num primeiro instante transparecer uma sutil contração nos músculos de sua face, como se estivesse pensando, Meu Deus do Céu, esse vagabundo vai me dar trabalho; porém instantânea e estranhamente a expressão desvaneceu-se, sendo substituída por uma de mera alegria – como se o forasteiro fosse um grande amigo.

“Bom dia!” disse o bigodudo, assustando César, que levou certo tempo para retribuir a saudação. “Que queres, meu filho?” perguntou o português cujo sorriso parecia colado na cara.

“Bom,” disse o fotógrafo, que ainda olhava fascinado como um bebê para o “figura” à sua frente, “pode parecer engraçado, mas eu queria saber onde é que eu ’tou. Quer dizer: em qual bairro.”

“No bairro das Flores, é lógico – o melhor bairro de Dória!” As palavras decoradas atravessaram com valentia o mato negro abaixo do nariz do feliz lusitano e chegaram aos ouvidos de nosso co-herói limpas como a pele duma deusa, de modo que ele compreendeu perfeitamente os nomes estranhos. Não obstante . . .

Onde?

“Flores.”

Novamente ouviu a resposta, mas esta implicava tantas coisas que decidiu não acreditar; o cara devia estar maluco.

“De onde?!” perguntou.

“Dória, é claro,” respondeu o incansável e feliz português.

“Dória?”

“Sim; Dória. Olha; tu pareces bastante cansado. Queres um café e um pão com manteiga?”

César perdera-se em pensamento; demorou alguns segundos para aceitar a gentil oferta daquela figura tão peculiar. Agora que sabia onde estava era impossível não pensar em ontem. Não tinha certeza de nada, exceto de que ontem estivera no Rio – na Capital do Rio; não numa cidade escrota do interior, ou – ou será que…?

“Que dia é hoje?” perguntou, quando o simpático lusitano lhe trouxe café e pão. Pela primeira vez em sua vida teve medo de qual seria a resposta a essa pergunta.

“Sábado.”

César franziu as sobrancelhas e abriu a boca, pasmo. Ser sábado trazia ainda outras implicações à situação. Antes ele pensara que era sexta e que acordara em Dória (!) após uma quinta-feira totalmente nebulosa – meu Deus, será que já não era estranho o bastante?! Ser sábado significava ter havido entre a quinta-feira nebulosa e a sexta-feira em Dória ainda uma outra sexta-feira – que fazia da primeira um sábado e da segunda (não segunda-feira, mas a segunda sexta) um dia completamente em branco!

Tomou café no bar. Alguns segundos depois de terminar, quando estava prestes a sair, ouviu o português o chamar: “Olha, são do meu filho. Não sei se vai servir, mas vocês são bem parecidos.” Ele segurava uma calça preta e uma camisa branca com as duas mãos. As roupas pareciam perfeitas para César, que achava que o bigodudo só podia ser um anjo. Enquanto estava se trocando no banheiro, César entendeu o motivo de tanta cordialidade. Pensou nas palavras do português: Vocês são bem parecidos. Estava claro: o cara tinha perdido o filho – por sinal bem parecido com César – e tinha tomado um choque algo irracional ao vê-lo de volta. Mas eu não posso ficar aqui pra sempre, pensou César. Preciso voltar pro Rio . . . Mas como? Pensou também em como ficaria de bigode e deu uma histérica gargalhada ouvida por todos no bar, embora ignorada.

Pediu ainda um último favor ao português antes de sair: “Posso usar o telefone, por favor? Eu ligo a cobrar.”

“Pode, meu filho,” disse o dono do bar, olhando com seus pequenos olhos pretos para os grandes olhos verdes de César. A expressão “meu filho” parecia ter um significado todo especial para ele.

Por alguns momentos César não conseguiu se lembrar do telefone de sua casa e achou que estava com amnésia – até que faria sentido e explicaria um monte de coisas, –  mas finalmente lembrou-se. Pensou pela primeira vez em sua mulher. (Meu Deus, ela deve estar desesperada!) Kátia parecia ser o tipo de mulher que ficaria feliz – em vez de com uma cólera mortal, como se poderia esperar de boa parte das mulheres – em ouvi-lo depois de tanto tempo; mas como o temperamento de mulheres férteis é talvez a coisa menos previsível do mun ––

“Alô.”

Vamos lá. O tom mais doce que você consegue . . .  “Oi, amor.”

Um segundo, dois segundos, três segundos . . . Lágrimas?Uhu! Lágrimas! Deu certo!

            “Ah meu Deus, é você!”

Uma piada . . . Será? Vai. “Desculpa, acho que foi engano. Quem fala é César Coutinho Macedo.” Puta, que bosta de piada . . . Risos? Ah meu Deus, obrigado. Adoro essa mulher!

“César, graças a Deus é você. Eu achei que você tinha morrido. Como é que você faz isso comigo, seu idiota?” Incrível. Ela estava com raiva, mas também estava feliz, e era doce demais para demonstrar ódio.

“Você não vai acreditar. Eu tô em Dória.”

“Dória? Por quê?”

“Essa é a melhor parte: eu não faço idéia!” Novamente sucumbiu à histeria e só pôde falar novamente depois de quinze segundos. “Você ainda gosta de mim?”

Um segundo, dois segundos, três segundos, quatro segundos . . .

            “Eu te amo, seu imbecil!”

“Ai, isso me ofende.”

“Foda-se! Você tá sumido há três dias! Imbecil imbecil imbecil imbecil imbecil!!! Eu te amo, volta logo . . .”

“Esse é o problema; eu tô completamente duro.”

“Cartão de crédito?”

“Nada. Você tem que vir me buscar.”

“Tudo bem.”

“Cê pode chegar na rodoviária umas duas horas?”

Risos.

Risos? Agora não faz sentido. Por quê?

            “Não, seu idiota. Esqueceu que eu trabalho pra te sustentar?”

“Há-há-há, muito engraçado. Que horas você vem então?”

“Dez horas.”

“Quê?!”

“Isso mesmo; dez horas da noite. Eu ainda tenho que ir no casamento da Márcia.”

“Então tá.”

“Então tá . . . Ah, peraí. Eu tô com tanta saudade . . . que que cê tá vestindo?”

“Agora não. Tchau. Eu –’’

“Eu sei. Eu também. Tchau,” e Kátia desligou.

Pelo menos parte do problema estava resolvida. Restava descobrir onde ficava a rodoviária, arranjar alguma coisa para fazer até as dez horas e – se necessário – conseguir dinheiro para chegar lá. Tudo isso se solucionaria simplesmente com auxílio do nostálgico ibérico, mas César achava que o anfitrião já fizera demais por ele, e até pedir uma informação parecia abuso. Queria sair daquele lugar, mas antes precisava agradecer por tudo. O português voltava de mais uma ida aos fundos do bar. César disse, “Senhor, muito obrigado por tudo . . . quer dizer, toda a sua ajuda, mas eu já tenho que ir encontrar minha esposa.”

“Tudo bem, filho. Tens certeza que não precisas de mais nada?”

“Tenho,” respondeu César. Apertou a mão do homem, pensando com razão que jamais conheceria alguém tão bom quanto ele, e partiu completamente renovado pelas ruas de uma cidade completamente nova.

2

            Às cinco horas da tarde ele já estava bem cansado da cidade – não que fosse feia, mas era é desconfortável estar sem dinheiro nem conhecidos a menos de cem quilômetros de distância. Já havia andado por muitos lugares onde vira cenas familiares com os personagens trocados – gente deixando seus cachorrinhos defecarem nas calçadas, gente comprando pão, gente se beijando, gente sendo assaltada, tudo igual ao Rio, – as quais observava com curiosidade que nunca antes tivera; mas depois tudo perdeu a graça, já que ainda mais tedioso que viver uma rotina é ver e se identificar com cenas rotineiras.

Ele não chegou a ser importunado por policiais – provavelmente por causa de suas novas roupas – mas notou vários olhares de desprezo devidos certamente a seu cheiro. Pensou várias vezes em pedir informação; mas quando se virava para uma pessoa, esta imediatamente parava de olhá-lo e discretamente desviava o passo – algumas chegaram a dar meia volta.

Estava com fome, muita fome. Considerou algumas alternativas. Podia pedir dinheiro, mas agora viu que seria melhor para esse fim estar com suas velhas roupas. Do jeito que estava, não convenceria pessoa alguma a ajudá-lo; estava de fato muito mais bem vestido que três quartos dos pedestres que encontrava. Parecia-se não com um mendigo, mas com um executivo excêntrico (ou estressado) ao ponto de nadar em merda.

Podia tentar o furto, mas, assim que essa idéia veio-lhe à cabeça, uma gargalhada veio-lhe à boca. Imaginou a cena: ele, com seus cento e dez quilos, correndo por ruas completamente desconhecidas com uma maçã na mão até ser atropelado ou preso ou linchado ou ter um ataque cardíaco. Sentiu vontade de chorar. Em vez disso sentou-se num banco da praça onde estava. Pôs as mãos nos bolsos e amassou instintivamente um papel que estava no bolso direito. Depois tirou o papel do bolso e viu que era uma… não, eram duas notas de dez reais. Deu um grande sorriso ao perceber que aceitara um último favor do português sem sabê-lo. Se estivesse perto da padaria devolveria o dinheiro (ou tentou convencer a si mesmo de que o faria), mas já estava bem longe; devia estar a um par de horas de caminhada de lá. Decidiu que a melhor forma de agradecer seria comer bem. Sentado, analisou a grande gama de estabelecimentos comerciais que se lhe oferecia aos olhos. Havia uma lanchonete, um restaurante que parecia caro e um outro… por quilo, meio precário… perfeito! Escolheu este.

Comeu como nunca, calculando que, tirando o pequeno café oferecido pelo português, devia estar sem comida há umas cinqüenta horas. Depois saiu com oito reais no bolso e, novamente, sem nada para fazer.

Como já se cansara de onde estava, decidiu continuar caminhando por lugares novos, deixando para depois a preocupação com a rodoviária.

Aproximadamente às seis horas estava numa parte mais movimentada daquela cidade. Os prédios eram maiores, as pessoas mais bem vestidas, o céu mais colorido, as ruas mais asfaltadas, as mulheres mais maquiadas. César se sentiu bem, como se estivera no Rio. Andava olhando para os olhos das pessoas, que pareciam não mostrar nojo, apenas indiferença. A melhor coisa – e também a pior coisa – de estar entre gente ocupada é que eles não lhe prestam qualquer atenção.

Quando ia atravessar uma dessas bem asfaltadas ruas, viu num táxi um rosto familiar.

 

 

SEGUNDO CAPÍTULO

 

1

            Guilherme acordou num lugar bastante confortável e conhecido: sua cama de casal, em que dormia na diagonal quando não tinha visita. Deviam ser umas dez horas, mas realmente não fazia qualquer diferença; hoje devia ser sábado, mas se não fosse a única diferença seria o preço do cinema. Para um vagabundo filho de pai rico como ele a vida era um ciclo “dormir-comer-festejar-‘comer’-dormir” interminável.

Ele se espreguiçou várias vezes antes de dar uma boa olhada na praia, de sua varanda. Sentiu-se inspirado pelo sol e cuspiu na cabeça do porteiro lá embaixo. Soltou uma gargalhada e foi tomar banho. Depois encomendou o café e ligou para sua namorada o – ela se dizia sua namorada, embora Guilherme detestasse o termo. Ela o lembrou da viagem que fariam hoje a Nova Iorque. Quando foi que ela me convenceu disso? tentou se lembrar. Essa mulher deve achar que eu gosto dela ou coisa assim. Disse:

“Poxa, hoje eu não vou poder,” disse, mas Linda já desligara; então gritou para si, “Parabéns, garanhão; agora você vai passar uma semana com essa vadia. Sensacional!” e voltou a dormir.

Acordou de novo quando o telefone tocou, às quatro horas.

“Cadê você, amor? Você já devia estar aqui.” Era ela, referindo-se a seu maldito prédio. “Assim a gente vai se atrasar.”

Ele se levantou, jogou o telefone para o alto e saiu correndo sem mala nem nada para buscá-la. De lá ela dirigiu até o aeroporto, pois achava que ele estava bêbado. Bêbado! Revoltou-se Guilherme. É só a minha cara. Chegaram bem na hora, e às cinco e vinte e dois estavam decolando.

 

2

 

Guilherme acordou pela terceira vez do dia no meio do vôo, cutucado por sua “namorada.”

“Olha,” disse a mulher, “estamos sendo seqüestrados.” Ela estava chorando.

Ele ainda estava embriagado de sono; demorou um pouco a entender, mas entendeu. Tentou acalmá-la dizendo, “Tá tudo bem; não chora, amor.” Enquanto isso três homens morenos, bigodudos e com enormes narizes convexos gritavam:

“Silêncio! Nós só queremos ir pra Nova Iorque. Se ficarem quietos ninguém morre.” Cada um deles carregava uma pistola. Linda, tomada de pânico, tentou ingenuamente corrigir os seqüestradores dizendo, “Mas nós já estamos indo pra Nova Iorque!” e levou sete tiros na testa.

Os criminosos agora pareciam confusos e perguntavam um ao outro, “É verdade?” Um deles disse: “Eu achei que era pro Irã ou Iraque ou coisa assim.”

Então uma gigantesca mulher loira levantou-se e metralhou os três imbecis.

Todos a bordo da aeronave entraram em pânico e começaram a berrar – exceto a tripulação e Guilherme, que estava dormindo. Em seguida as aeromoças contaram aos passageiros que a loira era policial, e que estava no avião devido às novas medidas antiterrorismo.

Ainda havia, porém, passageiros em estado de choque. Para que pudessem ser devidamente atendidos o avião pousou no aeroporto mais próximo – o de Dória.

Ao acordar, Guilherme foi inquirido por uma bela jovem de uniforme se a moça a seu lado – a que não tinha mais uma cabeça propriamente dita – estivera o acompanhando.

Ele olhou para o lado e respondeu, “Não, eu nunca vi essa mulher antes.” Então, por parecer-lhe suficiente o pretexto, continuou: “Mas se você quiser jantar comigo –’’ mas ela já estava de costas para ele, consolando uma senhora. “Vadia,” murmurou o inútil.

Estava pronto para voltar a dormir, mas notou algo estranho – não a fisionomia de sua “namorada” nem os três trapalhões de cara pro chão; algo mais. Claro: o avião estava parado. Ou isso ou a paisagem tá voando junto com a gente, pensou, emitindo uma gargalhada desproporcional à piada. Seu senso de humor não era dos mais apurados.

Mas ele não sentia como se tivesse dormido por mais de cinco horas. “Ei,” gritou, “onde é que a gente tá?”

Foi ignorado por todos; olhou ao redor e viu que “todos” não eram muitos. Alguns ainda estavam dormindo, outros andando, vários chorando. O avião estava quase completamente vazio – claro! estavam saindo. Levantou-se e saiu também, para um aeroporto onde havia muito mais brasileiros do que ele gostaria de ver. Foi ao banheiro, pensando que ao menos era melhor do que ficar preso em Nova Iorque com sua autodenominada namorada por duas semanas.

Mas onde estaria ele? Perguntou ao faxineiro, que aparentemente não entendeu a questão.

“Que lugar é esse?” repetiu impacientemente.

“O banheiro, sinhô,” respondeu confuso o simplório homem.

“Deixa pra lá,” murmurou Guilherme, abrindo a porta e saindo. Enquanto passava por pessoas, portas e escadas rolantes ele ponderava em que cidade poderia estar. À primeira mulher que não lhe parecia idiota nem muito feia – uma atraente mulher de cerca de quarenta anos, cabelos negros como petróleo, pele bastante branca, olhos verdes, nariz pequeno e pontudo e um corpo todo no lugar – que cidade era essa.

“Dória,” disse ela, mostrando por meio de algum gesto sublimemente sutil que o achava tão repugnante e patético quanto um porco poderia ser. Mas no momento precedente Guilherme se encontrara concentrado nos seios da moça. Repetiu a pergunta, ao que a mulher repetiu a resposta, com uma cara de saia daqui ou eu chamo a polícia.

Ele se virou quando percebeu que suas chances com a megera eram… bem, quase nulas; e começou a fazer um reconhecimento do local. Ao contrário do que acontecia com César, estar em Dória para Guilherme Abranches era qualquer coisa menos má notícia – era só mais um universo de diversão sem conseqüências aberto à visitação. “Dória…” disse a si mesmo. “Tudo bem!”

Saiu do algo precário aeroporto quando a luz natural lhe dava adeus em grande estilo, dando ao céu pelo menos quatro cores. Entrou num dos táxis que aguardavam à porta do edifício e disse ao sujeito cujo banho semanal devia estar pendente: “Me leve ao melhor hotel dessa cidade, por favor.”

Depois de algum tempo no carro – suficiente para se decepcionar com a cidade –  Guilherme foi  surpreendido por um doente mental que impiedosamente atacava a janela a seu lado. O cheiro da criatura atravessava o vidro brincando. “Gui,” dizia ela, “Gui, sou eu – o Teca!”

Assim que viu que o motorista empunhara seu revólver, Guilherme disse, “Não, não; eu conheço ele.” Ele abriu a porta e deixou seu velho amigo entrar. Mal podia crer que era ele. “Você está tão mudado,” disse, sem descartar a possibilidade de ter se confundido.

“Eu?” disse a figura. “Olha quem fala! Mudou até a cor dos olhos!” Era impressionante: nem seu pai tinha reparado suas lentes azuis quando ele as adotara!

“Teca?” perguntou Guilherme, “é você mesmo?”

“Mas claro,” replicou César, como se reconhecer um rosto trinta anos depois fosse natural.

Havia, potencialmente, tanta coisa a dizer que eles não sabiam continuar. “O que você tem feito?” foi o que César conseguiu, depois de olhar pela janela por algum tempo.

Guilherme, apesar de se achar feliz e – sem jamais explicar por que – orgulhoso de sua vida, se sentia agora envergonhado. O que diria ao melhor amigo que já tivera? – aquele que, achava, o admirava? Neste instante desejou irracionalmente poder trocar seu tão amado “dormir-comer-fetejar-‘comer’-dormir” por poder dizer sinceramente que trabalhava e contribuía com o mundo, diferente daqueles parasitas filhos-de-papai. “Eu… eu… ’’ começou, sem idéia de uma frase convincente que fosse. Parecia que a qualquer emprego que dissesse que exercia seguiria a resposta “Que coincidência! Eu também!” que o intimaria a conversar sobre o assunto. A única maneira de impedir a total humilhação foi: “Ah, trabalho!” – quase um grito – “Chega! Não posso mais falar uma palavra sobre meu maldito trabalho!” A desculpa era a pior possível, mas o semblante do interlocutor mostrava a mais franca confiança.

“Desculpa,” disse Teca, “eu não queria te estressar.”

“Tudo bem, amigo; mas nada de trabalho hoje, OK?”

“OK.” Então César – que estava ansioso para conversar sobre qualquer coisa com qualquer pessoa, depois de seu dia de mendigo – procurou outro assunto: “Mas o que você gosta de fazer?”

“Jogar xadrez, ler, ir a museus… coisas assim.” Tudo mentira.

“É mermo?” Pela cara de César, Guilherme podia ver que conseguira manter o respeito. O fotógrafo continuou: “Mas como é que –”

“Peraí,” interrompeu Gui, “eu estou morto de fome. E você?”

“Na verdade –”

Motorista! Para o melhor restaurante da cidade!” gritou Guilherme com um entusiasmo italiano. O motorista – que não fazia idéia de qual era o melhor restaurante da cidade, – para conter seu instinto de executar esse inútil, repetia na sua cabeça as palavras, O dinheiro; pensa no dinheiro.

Guilherme Abranches se salvou de ser executado dando ao taxista uma cédula de cinqüenta e não pedindo troco, depois de ser deixado à porta dum restaurante que o último havia achado bonitinho.

No restaurante, César, que já estava farto, tentava conversar com seu amigo; enquanto este evitava a maioria das perguntas simplesmente enfiando um monte de peixe ou de vinho ou o que estivesse por perto na boca. Algumas respostas ele deu, no entanto – poucas, opiniões monossilábicas –; mas estas foram suficientes para que Teca descobrisse que seu velho companheiro de aventuras de infância (basicamente xingar meninas e depois sair correndo) e de adolescência (basicamente ver revistas de mulher pelada escondidos dos pais) tornara-se no decorrer dos anos uma pessoa não apenas burra, mas igualmente preconceituosa, com um senso de humor pouquíssimo apurado, machista e – embora tentasse heroicamente esconder – um inútil preguiçoso. César sentiu uma vontade, ainda que leve, de matá-lo.

“AAAh!” rugiu o inútil, dando em seguida um arroto e tomando o último gole do vinho português. Depois de ir ao banheiro, voltar e pagar a conta, Guilherme finalmente decidiu falar; enquanto se preparava para fazê-lo, seu mais novo inimigo, prevendo algo grandioso (talvez até Redenção) ajeitou suas costas contra a cadeira solenemente. Por fim Guilherme Abranches propôs algo de um alcance muito maior do que jamais seria capaz de calcular ou mesmo imaginar, algo que mudaria a vida dos dois para sempre; César, sentindo o suspense no ar chegou a pensar se o outro diria “eu te amo.” A frase do inútil, como algumas das idéias mais brilhantes, foi simples:

“Tá afim de um cinema?”

 

 

TERCEIRO CAPÍTULO

 

1

            Natália e Isadora, namoradas, estavam no carro. Elas se haviam conhecido quando tinham sete anos de idade, e sempre foram melhores amigas. Não havia, logicamente, naqueles tempos atração romântica; esta só veio aos quinze anos, depois de algumas decepções com garotos, e foi reprimida na época; de modo que as duas só começaram a namorar aos dezessete, e nenhuma de suas amigas de colégio jamais ficou sabendo.

Hoje em dia, decênios depois, elas estavam felizes; e no momento queriam comemorar com uma viagem a Teresópolis. Nenhuma delas jamais tinha dirigido para fora da cidade (Rio de Janeiro); porém preferiram a aventura à monótona viagem de ônibus. Aconteceu de as duas se arrependerem; também aconteceu que a essa altura já era tarde demais.

Muitas das placas estavam obstruídas por mato; outras foram destruídas de diversas maneiras: batidas, ferrugem e até tiros! Já haviam passado por inesperadas estradas de lama e inclusive vacas no meio do asfalto.

“Que é que ’tava escrito ali?” perguntou Isadora, a mais bonita, que dirigia.

“Não reparei,” disse a ingênua Natália.

“Presta mais atenção!” advertiu a motorista, num tom que deixou sua companheira magoada; esta, que tinha um problema sério de autoconfiança, começou a chorar. A atlética (porém não com músculos inchados, de modo que preservava a aparência delicada apropriada a mulheres) Isadora, que era também psicóloga, arrependeu-se e se desculpou:

“Desculpa, ’mor, é que eu tô estressada – a gente está perdida.”

“Não precisava falar assim.”

“Eu sei, foi minha culpa.”

Então Natália lembrou, como se já houvesse esquecido a ofensa: “A gente não devia estar subindo uma serra?”

“Sim – acho que sim.”

Não estavam. Bem que gostariam de sentir aquela horrível sensação de tímpanos expandidos típica da serra, mas não a sentiam; pior era que provavelmente não saberiam voltar; então iria escurecer e elas seriam assaltadas, estupradas, mortas e enterradas ao lado duma barraca de “côco” gelado. Terrível!

Mas, talvez porque Deus já tivesse hoje matado bastante humanos desta maneira, ou talvez porque tivesse um fetiche por lésbicas; por alguma razão quis que as amantes encontrassem sinais crescentes de civilização.

“É uma cidade!” festejaram, pois isso era mais que suficiente. “É uma cidade.” De fato era. Adivinhe qual.

2

            Alguns quilômetros depois viram uma placa dizendo SEJA BENVINDO A DÓRIA – RJ, que pôs em seus rostos curiosos dois sorrisinhos toscos, como se fossem adolescentes e seus pais dissessem perante todas as suas amigas coisas “engraçadinhas” que elas tinham feito quando crianças. Conformadas, decidiram dar umas voltas pela cidade para achar alguma coisa para fazer; falharam. Isadora, que estava bastante cansada, parou ao lado dum sujeito não muito bem apessoado ao qual questionou – sem fazer idéia de que algumas horas depois, Guilherme Abranches falaria quase que o oposto a um taxista armado – o seguinte:

“Onde é que eu posso achar um hotel bem ruinzinho – bem baratinho?”

“Ali mesmo, dona: dua’ rua’ pr’esquerda,” disse o homem, aparentemente em código. A psicóloga respondeu “Obrigado” e dirigiu até achar o tal do hotel – um motel, literalmente falando – La Passion Dorianne, cujo nome era um fiasco deplorável. Estacionou; perguntou ao dono/recepcionista/zelador/faxineiro se havia algum quarto disponível, ao que ele respondeu “todos”; subiu com sua namorada e desfaleceu sobre o primeiro colchão (não se importaria se fosse um tapete) que lhe apareceu à vista.

Sonhou com um homem decadente – um hippie de meia idade, que misturava em seu léxico as gírias dos jovens de hoje com as dos anos ’70. Ele aparentava ter problemas com o capitalismo.

 

3

            Ao acordar, Isadora foi surpreendida – e não foi só porque já escurecera. Sua alma gêmea – a quem ela considerava fresca demais até para uma mulher, e que ultimamente vinha apurrinhando-a com maior freqüência e que, francamente, era uma idiota – estava linda, toda arrumada e perfumada, com as pernas cruzadas sensualmente e segurando o jornal que comprara enquanto Isadora roncava levemente. Esta levantou-se e andando graciosamente sentou no colo de Natália, dando-lhe um beijo apaixonado.

Natália, num tom de pedido de desculpas, propôs, “Olha, eu acho que a gente ainda tem chance de ter uma noite divertida,” e apontando para o jornal jogado no chão: “tem uns três ou quatro filmes que nós duas podemos gostar. Um é de Segunda Guerra –”

“Spielberg?”

“Não.”

“Então não.”

“Uma comédia romântica…”

Isadora pôs o dedo na boca e a língua para fora, simulando o ato de vomitar.

“E um de mistério, com um cara que –”

“Perfeito!” E ambas riram como duas adolescentes falando ao telefone.

___

QUARTO CAPÍTULO

 

 

Nosso quinto (e acreditem, um dos últimos) personagem chama-se Maurício Luiz e tem – mais por destino do que por acaso – aproximadamente a mesma idade de todos os outros. Alguns dias antes deste em que se passa a história, ele recebeu de um homem misterioso que usava um capuz um bilhete quase ininteligível e assaz rude. E isso, imaginem só, dentro de sua própria loja de ferramentas, que ele tinha adquirido com tanto suor e economia… um verdadeiro ultraje!

O bilhete fora remetido pelo C.A.P. – o Comando Azul Piscina, – uma gangue de traficantes de uma favela próxima; e dizia basicamente que Maurício deveria fechar as portas de sua loja no dia seguinte, em luto ao assassinato de um dos líderes do grupo.

Ele não obedeceu. No dia seguinte – em que não houve movimento de clientes o – Maurício deu uma volta pela rua e atestou que nenhum dos outros estabelecimentos – e olha que havia vários – abrira as portas; mesmo assim continuou esperando pelos fregueses, que não vieram. Achou estranho.

Os dias seguintes foram normais, com clientes entrando e saindo como sempre haviam feito, com pivetes pedindo dinheiro “pa compá cumida” e sem assaltos. Hoje, no entanto, aconteceu. Na hora de fechar, quando todos exceto ele já haviam partido, chegaram não só um, mas três homens encapuzados e armados.

Maurício – que apesar de não ser mais um mocinho, tampouco era relaxado quanto a seu corpo – imediatamente pulou para trás do balcão, agarrando antes de cair o revólver .45 que lá escondia; enquanto isso os bandidos começavam a atirar, fazendo vidros se quebrarem e ferramentas (já que Maurício vendia ferramentas) caírem no chão.

Ele era um daqueles poucos cidadãos portadores de armas que realmente têm aptidão para usá-las – possuía visão perfeita e tinha uma mira muito boa. Mesmo assim, quando levantou sua cabeça, expondo-a, não achou que isso seria suficiente. Deu quatro tiros, mas achou que havia mais do que sua própria mira nestes – como se Netuno ou Marte ou algum desses sujeitos tivesse tempo livre para ser deus da mira e houvesse manejado a mão do comerciante; como se não fosse ainda a sua Hora. De qualquer forma, antes de abaixar sua cabeça novamente pôde ver que um dos homicidas (seleto grupo do qual ele agora era parte) fora atingido na cabeça – que com a força do .45 havia se transformado numa ex-cabeça – e que outro tinha sido pungido no peito; se era do lado esquerdo ou direito, Maurício não fazia idéia.

Agora, detrás do balcão começou a escutar os horríveis gritos do marginal ferido no peito e distinguir passos apressados. Por uns momentos não houve tiros. Nervoso, o capitalista ergueu sua cabeça e viu os dois atingidos jogados no chão; o outro (o único branco e certamente o mais medroso) havia, pelo visto, fugido. Maurício sentiu-se horrível quando pôs fim à miséria do que chorava.

Ainda segurando sua arma e ainda inundado de adrenalina, ele saiu do balcão e começou a pensar desordenadamente sobre chamar a polícia; então ouviu um tiro. O medroso não tinha fugido, mas apenas se escondido atrás da quina da parede, do lado de fora da loja; loja essa que não tinha uma porta, mas um grande buraco de entrada, como boa parte das lojas.

Maurício, sabendo que seu oponente era um covarde e temendo possíveis reforços, correu; deu um tiro e depois saiu voando, dobrando a esquina e mantendo-se atrás de árvores e muros; esgueirando-se e buscando as ruas mais cheias de obstáculos; sem saber todavia se tinha ou não despistado o mau-caráter, pois não olhara para trás nenhuma vez. Então viu.

O shopping.

Hoje eu não morro,” disse.

___

QUINTO CAPÍTULO

 

1

            “Pára de me apressar! Eu vou acabar caindo.” Natália estava usando saltos altos demais para andar com pressa.

“A gente vai se atrasar desse jeito!”

“Mais rápido que isso eu não posso.”

De repente . . .

AAAAAIIII!!!” Natália se desequilibrou e caiu de joelhos. Conseguiu ver que o rosto de sua companheira fez, antes da esperada cara de “coitadinha, ela se machucou por minha culpa,” uma impaciente expressão de “droga, vou perder o cinema por causa dessa imbecil”; a partir de então Natália passou a odiar a certinha da Isadora, assim como Isadora já odiava a molenga da Natália.

Natália recusou a mão da namorada e se ergueu sozinha. Elas continuaram andando, no ritmo de Isadora e sem uma palavra.

 

2

            Guilherme e César saíram diretamente do restaurante para o shopping, embora o fotógrafo não tivesse precisamente aceitado o convite. A hesitação fora fatal, pois Guilherme no segundo seguinte já havia posto em sua cabeça que esta significava um sim de pessoas tímidas; César não teve saída.

Andavam agora ao longo do estacionamento que levava ao primeiro andar do shopping. César odiava esses lugares tão cheios de gente e tão vazios de personalidade, mas por outro lado achou que teria uma boa chance de se “perder” de Guilherme no meio da massa. Ele olhava fascinado para as pessoas, achando curioso como todos eram parecidos e tentando conjeturar quantas delas eram realmente inteligentes.

Olhando na direção do grande portão de entrada viu alguém especial – por uma fração de segundo pensou que, se tivessem a chance de conversar, seriam grandes amigos –; então viu do lado da moça uma outra mulher e fez a conexão: a primeira era Isadora, que realmente tinha sido uma grande amiga sua havia muito tempo; a outra era Natália, de quem ele mal se lembrava. Gritou por atenção; as duas discretamente mudaram de direção, como se ele ainda fosse o mendigo que fora de manhã; aí César gritou seus  nomes e fez com que Guilherme, Natália e Isadora compreendessem.

“Meu Deus,” disse Natália para Isadora, “é o Teca… e o Gui!”

Agora os quatro já se haviam aproximado suficiente para conversar. Beijaram-se e abraçaram-se, comemorando. César disse: “O que vocês fazem por aqui?”

“A gente se perdeu,” respondeu Natália.

“A gente veio assistir um filme,” corrigiu Isadora.

“Nós também,” falou Gilherme, respondendo pelos dois às duas respostas.

“Já vai começar.” Isadora parecia estressada. “O que vocês vão ver?”

“O que vocês virem,” disse Guilherme, flertando por osmose. Aos outros ele aparentava estar cansado de trabalho.

“Vamos subir então,” sugeriu Natália, a única que sabia que o cinema era no sétimo andar.

Subiram.

 

3

            Após ter avistado o shopping, ainda a duzentos metros dele, Maurício havia se livrado de sua arma (seria difícil entrar empunhando-a e esperar não chamar atenção). Agora ele estava atropelando pessoas pelas escadas rolantes e pedindo-lhes desculpas. Quando não havia mais para onde subir, escondeu-se no banheiro, onde pretendia ficar por pelo menos algumas horas.

Não fazia idéia de que o exterminador desistira de persegui-lo há muito tempo, ao tê-lo visto adentrar o shopping.

Aparentemente não havia ninguém mais no lavatório, e ele começou a notar com estranheza que tudo a sua volta estava limpo e perfumado – mesmo o vaso no qual se sentava,– como se nenhum homem houvesse aqui pisado desde a construção. Quando ouviu a porta se abrir seu coração acelerou mais do que quando usava cocaína e sua testa encheu-se de suor; mas em vez da rajada de balas esperada, o som que ouviu foi como Pink Floyd para os seus ouvidos. Era uma voz de mulher, e ela devia estar maluca, pois era a única que respondia a suas perguntas; mesmo assim ela era linda, como Maurício sabia mesmo sem a ver. Curioso ele pôs-se na ponta dos pés para poder ver a mulher.

Instantaneamente ele sussurrou, “Isadora,” que era a mulher com quem sonhava desde sempre. Ela, que envelhecera ainda melhor do que ele tinha imaginado, gritou.

“Calma, Isadora – é o Maurício.”

Ela, que nunca tinha dado a mínima por ele, parou e ficou olhando. Descobriu que sentia pena dele; então descobriu por quê. O sujeito estava certo: seu nome era Maurício e ela o conhecia. “Maurício,” disse ela, condescendente, “que é que ’cê ’tá fazendo aqui?”

Maurício não sabia o que dizer: por um lado não queria confessar que estava fugindo duma quadrilha; por outro, tampouco queria dizer que estava mijando. Apenas olhou para ela como um cachorro abandonado.

“Esse é o banheiro feminino.”

“É mesmo?”

“É. Olha só: eu e a Natália – lembra dela? – encontramos o Teca e o Gui e vamos ver um filme agora. Quer vir?”

Enquanto olhava para os lindos olhos e cabelos negros da interlocutora; enquanto contemplava sua pele alva e lutava para não mostrar que estava salivando; enquanto seus olhos se enchiam dessas coisas, sua cabeça não teve mais lugar para medo do C.A.P. nem de coisa nenhuma. A idéia de reencontrar César não era das mais aprazíveis, pois o comerciante sempre tivera algo pior que indiferença por ele desde quando este roubara-lhe Isadora; mas como não é todo dia que se vai ao cinema com sua musa:

“Quero.”

Saíram do banheiro. Os outros três estavam na fila do cinema. Assim que os olhos de Gui encontraram Maurício, o primeiro passou – quase que só de vista – a odiá-lo. Por quê? Difícil dizer. Talvez visse no vendedor sinais patentes de que este era, embora não rico, bem sucedido e merecedor – o que Guilherme definitivamente não era – do que tinha; exatamente tudo que o bon vivant daria dez por cento de sua fortuna para ser, e que era o que ele mais invejava nas pessoas. Guilherme não era um bom cristão.

Apesar de Isadora odiar Natália, Natália detestar Isadora, Maurício desprezar César, César não suportar Guilherme e Guilherme querer matar Maurício – apesar de tais detalhes, todos os beijos e abraços (exercício: diga quantos) foram dados. Assim os bons e velhos amigos, com uma exceção, estavam novamente juntos. Compraram seus ingressos e entraram, visto que já era nove e meia e o filme estava prestes a começar.

___

SEXTO CAPÍTULO

 

1

            Aníbal fora a pessoa mais popular de seu colégio. Aníbal ao mesmo tempo estudava, tirava boas notas e pretendia (e provavelmente teria conseguido) virar um grande empresário. Aníbal namorou as garotas mais bonitas, mesmo tendo que abaixar seu Q.I. em quarenta pontos para conversar com tais amebas. Este tinha sido Aníbal, que por excesso de carisma unira diversos grupos de amigos que não combinavam – eram apenas grupos de pessoas que gostavam dele, com as quais ele pouco importava-se.

Mais isso fora há muito, muito tempo; tudo isso hoje era passado enterrado.

Aos dezessete anos o garoto-maravilha abandonou os estudos; como conseqüência foi obrigado a deixar seus pais; passou a morar na rua. No começo sua idéia era a de ser alternativo, de ser contra o sistema. Depois de algum tempo ele incorporou tendências místicas, sendo aceito numa seita indiana cujo nome será omitido por causa do espaço – cujo vulto é limitado e não pode ser gasto com circunlóquios desrespeitosos para com o/a leitor(a), que não acha engraçadas coisas contraditórias; este é um conselho valioso para todo/a escritor(a), seja de ficção ou não.

Não bastasse seu ódio inicial contra o sistema, Aníbal, certo dia em que chegou atrasado para a reunião, viu seus companheiros de seita serem tratados e presos como marginais. Isto foi a gota d’água, que acrescentou às tendências mística e de exclusão uma tendência à violência – ao terrorismo, digamos. Então ele passou a ser um místico excluído terrorista que punha bombas sem avisar (não entendia por que certos terroristas diziam que tinham posto bombas, dando aos capitalistas a chance de se salvar) em lugares como McDonald’s, The Gap etc.

Nem todos os seus atentados foram feitos na cidade do Rio de Janeiro, sua cidade natal; depois de algum tempo aterrorizando a cidade maravilhosa ele iniciou seu tour pelo grande Rio, tendo já deixado sua marca em todos os municípios médios e grandes do estado. Exceto por um.

Se havia uma coisa interessante (do ponto de vista neoliberal) para se fazer em Dória, essa coisa era ir ao grande shopping no centro da cidade. Se havia um bom lugar para a ação de um terrorista anticapitalismo, esse lugar era o grande shopping no centro da cidade; aqui dentro não havia lugar nem momento melhor para se matar um grande número de consumistas descerebrados do que no cinema, na estréia da mais nova comédia romântica americana.

A hora certa para estourar seu explosivo artesanal de 2,5 quilogramas teria lugar na sessão das oito e meia; para ter tempo Aníbal deveria entrar na sessão de seis e meia e aguardar o fim do filme – assim teria privacidade para bem posicionar o artefato. Ele não teve, todavia, a perspicácia necessária para calcular que nesse dia tão perfeito para detonar um cinema cheio, o cinema estaria cheio – lotado, na verdade –; de maneira que ele não pôde entrar na sessão de seis e meia. Os monstros haviam inclusive devorado, já às seis horas, todos os ingressos para a sessão das oito e meia.

Desinteressado em deixar o desastre para amanhã – estar com uma bomba nas mãos e não usá-la, havia descoberto há anos, é como estar faminto e dispensar um banquete – procurou opções. Escolheu um filme policial – o de guerra não era do Copolla,– levando em conta a possibilidade de se divertir assistindo-lhe (o fato de ser um filme inglês, não americano, atenuava-lhe o peso na consciência). Sentou-se bem no meio da sala, donde causaria maior dano, e divertiu-se como uma garota americana vendo uma comédia romântica americana; ao fim do filme esperou que todos saíssem, ordenou a sua bomba que deixasse de existir em vinte minutos e a pôs, escondida na bolsa, sob seu assento. Levantou-se para sair. Então viu.

Os amigos de Aníbal.

Bom… os ex-amigos de Aníbal. Na verdade os velhos amigos de alguém que, embora tivesse usado o nome “Aníbal” primeiro, não fora o verdadeiro Aníbal.

2

            O que Isadora viu logo depois de entrar com seus amigos e Natália na sala foi um Aníbal hippie de meia-idade com cabelos grandes e sujos como os de Bob Marley. Não era o verdadeiro Aníbal, mas era melhor que Natália e sua ínfima auto-estima (quase uma baixo-estima). Gritou:

“ ‘ANÍBAL!

Pelo menos ela acertou o nome! pensou Aníbal vendo a belíssima mulher que fora uma garota inteligente demais para o fútil “Aníbal” namorar, o que era uma pena. O rosto dela, além de uma beleza comparável à sabedoria duma vaca, era pura alegria só de ver a Aníbal; mas a alma dela estava suja de ódio por Natália, que era sob seus olhos fúteis a futilidade encarnada.

“ ‘Aníbal! ” gritou Natália, um pouco menos alto, abrindo menos que meio sorriso nada bonito. Ela estava ainda mais manchada; ela sofria não só com o ódio que tinha, mas também com a perspectiva de perder a melhor mulher que jamais poderia arranjar – perspectiva que aumentava a seu ódio e a si ciclicamente. Natália não queria mais viver, porque homens não prestavam e apresavam as preliminares.

“ ‘ANÍBAL!!!’ ” vociferou César, como fizera tantas vezes há tantos anos, caindo em seguida vítima dum ataque de risos sardônicos. Depois de ‘‘Aníbal,’’ César havia sido o mais inteligente; era também intransigente com pessoas “imbecis por opção,” como chamava os imbecis que só eram imbecis porque tinham desperdiçado a educação a eles oferecida e a tantos outros negada. Ele tinha ódio, tinha ojeriza a Guilherme, que não conseguira esconder sua imbecilidade por ter usado artifícios imbecis.

“ ‘Aníbal,’ ” disse Guilherme, que dentre o lixo capitalista do mundo conseguia se destacar como o mais fedorento – pior era que ele sabia e não fazia nada. Achava que seria melhor se todos fossem imbecis do que se ele – logo ele – se esforçasse para ser alguém; e o pior é que quase todos eram imbecis inúteis, o que reforçava a tese. Portanto ele achava que Maurício e todos os Maurícios da Terra deveriam ser exterminados. Pessoas imbecis como Guilherme tendem a perverter a admiração, transformando-a em inveja e ódio.

“ ‘ANÍBAL1!’ ’’ ejaculou Maurício, imitando o grito de sua amada lésbica. O pobre Maurício nunca perdeu a impressão de que quase tivera Isadora, enquanto esta sempre fora apaixonada por Aníbal e achava César (quem havia namorado) infinitamente mais bonito e inteligente que Maurício; naquela época, aliás, Isadora já descobrira que Natália era mais bonita, delicada e sensível que todos; de modo que Maurício nunca teve a mínima chance. Só que ele jamais desconfiou disso; achava que só ele a havia amado de verdade, e que César – se tivesse sido o bom amigo que parecia ser – teria deixado-lhe Isadora.

César, portanto, devia morrer.

O verdadeiro Aníbal havia com seus poderes místicos descoberto que: Isadora queria Natália morta, Natália queria Isadora morta, César queria Guilherme morto, Guilherme por sua vez queria Maurício morto, e Maurício queria César morto.

 

Acontece que pessoas normais não matam pessoas, porque podem parar na cadeia com gente maluca que mata pessoas.

(Ele poderia salvá-los a todos.)

Acontece que Deus pode matar pessoas, e em geral as mata.

(Ele podia convencê-los a sair da sala; então eles veriam o cinema explodir e…)

Deus tem vários recursos para matar pessoas: terremotos, fogo, enchente, cigarro, salsicha…

(… eles iam achar que Deus os tinha juntado e salvo para que eles percebessem…)

… pessoas.

(… que deviam ficar juntos e voltar a ser amigos porque eram especiais.)

Cada um deles ficaria feliz por ver morto a um dos outros…

(Eles eram amigos de Aníbal.)

E cada um era desejado morto por alguém.

(Tudo bem, eles haviam sido amigos de “Aníbal,” mas…)

O aumento da população é uma progressão geométrica, enquanto o da produção de alimentos é uma progressão…

(Eles não eram especiais, mas quem era? A tecnologia aumenta a produtividade da agricultura.)

Você faz idéia do que é montar uma bomba – uma bomba-relógio!– e não poder usá-la?

(Pior que eu sei… aliás eu adoro explosões! Por que foi que eles não escolheram o filme de guerra? Imbecis! Têm mais é que morrer!)

E o que eu tava dizendo…?

(Desculpa.)

Aníbal os convidou a se sentarem ao redor de sua poltrona. Enquanto eles começavam a falar coisas como Blá blá blá comprei uma roupa, ou Blá blá blá fui no McDonald’s, Aníbal fingia uma dor de barriga. Então disse, “Vou ao banheiro e já volto,” e saiu.

“Que será que tem aí?” perguntou Natália, prostrando-se.

“Deixa aí!” disse Isadora; “curiosidade matou o gato, sabia?”

            Aníbal já saíra do prédio quando ouviu o estrondo de metade do último andar voando. Todo mundo à sua volta gritou e correu em desespero caótico; mas ele só parou, virou-se e abriu um grande sorriso – que para qualquer um que o visse seria muito estranho, ainda mais se soubesse o que ele fizera, pois pareceria o regozijo pervertido dum assassino; mas que era em verdade muito mais puro.

Ele sorria o sorriso de Deus. Ele havia tido poder sobre a vida das pessoas, e realizara os desejos mais íntimos – desejos que elas sozinhas não poderiam realizar – de 100% delas (uma média muito melhor que a de “Deus”)! E mesmo que tudo não passasse duma grande ilusão Dele, mesmo que Ele não passasse dum peão com mania de grandeza, no mínimo… bom…

Ele nunca gostara deles mesmo.

Rio de Janeiro, 4 de abril de 2002.

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