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Organizando os fundamentos da dieta da sardinha (com um pouco de darwinismo)

Pois bem. O objetivo deste artigo é só deixar bem estruturada a dieta que, até onde eu sei, fui eu que criei. Ela não é nada de mais – trata-se apenas de um exercício de soma feito com a ciência que já é senso comum. Também é por isso – porque eu não tomei liberdades, não fui criativo, não inventei absolutamente nada – que posso dizer que ela não pode estar errada, exceto nos casos óbvios como o de alergia ao amendoim, em que uma dieta rica em amendoim seria maléfica. Mas presumindo uma pessoa com composição comum a bilhões de outras, ela deve funcionar.

Primeiro, o que é uma vitamina, e por que vamos falar dela?

Com licença dos termos químicos precisos, vitamina é uma molécula (um conjunto de átomos colados de forma estável) de que o corpo humano precisa em pequenas quantidades, porém frequentemente, e que ele é incapaz de produzir. Aqui já há conceitos importantes, pois estamos diferenciando as vitaminas de (A) substâncias que o corpo consegue fazer a partir de outras coisas que ele ingere, e de (B) moléculas que precisamos ingerir em grandes quantidades.

O seu corpo pesa dúzias de quilos, e, embora quase tudo seja água, você também precisa de outras coisas para compor o seu corpo. E não se engane – você precisa delas em grandes quantidades – seus ossos, músculos, órgãos internos, unhas, cabelos que caem às centenas todo dia, pele que se solta e retorna ao estado de poeira que nos aguarda a todos… Embora as vitaminas possam ser encontradas em alguma parte dos processos que produzem toda essa bagaça ambulante, não são elas exatamente que caem junto com os cabelos no ralo. As coisas de que precisamos aos montes, não só para formar isso tudo, mas também para respirar e não deixar o sangue parar de circular, são as proteínas, gorduras e (não necessariamente, mas capaz de fazer parte do trabalho de entrega de calorias) carboidratos. Estas coisas são a gasolina no tanque. Numa metáfora ligeiramente mais fraca, as vitaminas são o óleo. De todo o peso de comida que você consome, a grande maioria está ali para te entregar energia, que é absolutamente a prioridade do seu corpo, para você não morrer em poucas semanas. Eu já me perguntei como foi que o homem pré-histórico descobriu que ele precisava comer. A pergunta é estúpida lógico, pois basta olhar para um bebê para ver que o desafio não é enfiar algo em sua boca, mas sim impedir que ele coma todos os objetos pequenos da casa. Não bastasse isso, a fome prolongada dói tanto porque o seu corpo não quer nem saber se você quer emagrecer ou não pode parar de trabalhar – coma ou vou transformar a sua vida num inferno!, vocifera.

A deficiência de vitaminas não mata com a mesma presteza nem a certeza da ausência de energia ou água, mas acredite, ela mata também. Na época das grandes navegações, em que as pessoas ficavam meses num barco, uma das causas de mortes era não necessariamente a ausência total de comida (já se salgava carne para durar meses, e os grãos duram naturalmente), mas a ausência de frutas frescas.  A deficiência de vitamina C levava ao escorbuto (mesmo radical de ascórbico), nada menos do que a incapacidade de produzir colágeno, e tome defunto n´água.

Também houve o experimento do cientista que alimentos vários ratos com leite por um período, e que a outros ratos deu os elementos do leite conhecidos à época (água, gordura, sei lá mais o quê). No fim, apesar de terem consumido bastante água e energia, os ratos do leite decomposto estavam mortos, por deficiência do que em breve se chamaria de vitaminas. Repare que “vitamina” é um termo relativo. Toda vitamina é uma molécula tal, com fórmula bem definida, mas a mesma molécula que é uma vitamina para os humanos pode não o ser para os ratos. O ácido ascórbico é para nós a vitamina C porque precisamos dele em nossa dieta; mas, do ponto de vista de um bicho que o dispense, ele é apenas uma molécula sem nada de especial. Mas, certamente, o leite contém algumas ratominas cuja ausência foi sentida pelas cobaias.

Voltando à definição, uma vitamina não pode ser sintetizada pelo corpo. Neste sentido, a vitamina D é ora vitamina, ora não. Em dias de bastante sol, o corpo é, de fato, capaz de produzi-la, então nesses momentos ela deixa de ser vitamina, mas continua sendo essencial.

Mas então, por que é que quase todo mundo não sai morrendo por falta de vitaminas? Simples. A verdade é que não faz nenhum sentido evolutivo o corpo humano precisar de nutrientes que o homem não possa achar nas coisas disponíveis para comer. Não é que Deus quisesse assim – é simplesmente que, se a nossa espécie fosse tão desajeitada assim, teria sucumbido na primeira geração, e não estaríamos tendo esta conversa.

Mas também, já que estamos falando da cruel  inexorabilidade (ou inexorável crueldade) da seleção natural, devemos ter uma ideia bem clara na nossa cabeça: os genes são uns filhos da puta, e eles não querem nem saber. O fato de que a natureza deve nos fornecer nutrientes suficientes para vivermos absolutamente NÃO QUER DIZER que nós estamos destinados a viver bem, ou viver muito. Os genes, assim como qualquer bicho, só querem ficar vivos, e para isso eles querem se produzir por você e te usar como veículo, assim como aos seus filhos e netos. E para isso eles nos produzem aos montes, pois não importa se 5 em cada 6 humanos morrerem na infância e o sexto morrer aos 22 anos. Nasceu, reproduziu-se, morreu. Próximo.

Só que para nós é mais complicado. A maioria de nós quer estender ao máximo a vida, ou ao menos a parte boa dela. Então, embora uma dieta não pensada provavelmente não vá te matar aos 40 anos, é possível que ela te deixe com Alzheimer aos 60, ou osteoporose, ou enfim, é possível que você esteja empilhando décadas de desleixo em algumas das dúzias de funções que os nutrientes cumprem. E eu não estou propondo nenhuma babaquice vegetariana, espiritual, e nem mesmo que você troque de corredor no supermercado ou que largue a pizza ou a cerveja. Afinal, se a ideia é prolongar a parte boa da vida e estas coisas te fazem feliz, não adianta excluí-las em troca de mais uns anos de resmungos e Faustão.

parte 2: https://alexmedawayhasleftthebuilding.wordpress.com/2012/06/09/organizando-os-conceitos-da-dieta-da-sardinha-2/

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